Aos 77 anos, Paulo José fala sobre os 20 na luta contra o mal de Parkinson

Ator trabalha para ter energia e não se lamenta nem pela idade nem pela doença

PATRÍCIA TEIXEIRA
‘Já deixei de fazer muita coisa por conta do mal de Parkinson, mas também enfrentei a doença em várias outras ocasiões’
Foto:  Divulgação

Vitória - Paulo José está sob os olhares das filhas Bel e Ana Kutner. Não que ele precise. Mas é que elas não se cansam de admirar o pai forte e ativo, que não se deixa abater por conta do mal de Parkinson, descoberto há 20 anos. A poucas horas de ser homenageado pelo 21° Festival de Cinema de Vitória, o ator está calmo, sentado em sua suíte com vista para o mar. Ele ri, folheia o livro explicativo do evento e conversa, pausadamente, com o DIA.

Aos 77 anos, ele também não nega a alegria de receber mais uma homenagem ainda em vida. “Morto a gente não sente nada. Vivo, posso sentir emoção. É bom ter essa sensação de que vale a pena viver”, reflete o ator.

Longe das telonas desde ‘O Palhaço’ (2011), Paulo acredita na força que o cinema tem de manter as obras dos atores sempre em evidência. “Cinema é imortalidade. Você continua ali, em movimento”. E ele elege ‘Macunaíma’ seu principal filme ao longo de seus 60 anos de carreira. “E muita gente não sabe que fiz esse filme por acaso”. Paulo também critica as novas produções com finalidade comercial. “São um retrocesso, uma falta de verdade.”

Dedicando seu tempo atual à direção e concepção de novas peças teatrais, o ator não esconde o desejo de fazer mais trabalhos na TV e no cinema. “A gente se sente melhor quando está fazendo as coisas. Tem uma cena em ‘Luzes da Ribalta’, de Charles Chaplin, em que uma menina bailarina está doente. E o médico avisa que, se ela dançar mais uma vez, vai morrer. E Chaplin responde que ela morrerá se não dançar. Ela dança e morre. Mas ela morreu com amor”, explica ele, com o olhar de quem anseia por mais.

O currículo, com 39 filmes, 21 novelas, 25 minisséries, 31 peças e 22 montagens como diretor, ainda tem espaço para mais produções, garante. Paulo só lamenta não poder pegar qualquer tipo de papel e admite que seus próximos personagens precisam ser mais leves, como Benjamin, da novela ‘Em Família’. “Têm que ser mais delicados. Fazer televisão é muito cansativo e eu não tenho mais resistência. Mais de seis horas de trabalho eu já estou cansado. Dez horas, então, estou exausto”, comenta.

“Já deixei de fazer muita coisa por conta do mal de Parkinson, mas também enfrentei a doença em várias outras ocasiões”, relembra ele, referindo-se à peça ‘A Controvérsia’ (2000), do escritor francês Jean-Claude Carrière e produzida por Pedro Bial, em que usava a força para quebrar degraus com os pés e rolava escadaria abaixo. “As pessoas quase infartavam na plateia, mas papai é de circo”, interfere Ana Kutner. Paulo completa: “Era incrível uma pessoa com Parkinson fazer aquilo. Mas o personagem é muito mais forte que o ator.” Ele também cita o filme ‘Benjamin’ (2004), dirigido por Monique Gardenberg. “Eu não queria fazer porque achava que já estava velho demais. Mas a Monique falou que só faria o filme se fosse comigo. E eu topei. Depois, vi que ele foi ótimo para mim. Me fez muito bem”.

Com tantos projetos em mente, Paulo pretende tocá-los sem muitos obstáculos. “Não sou perfeccionista. Sou relaxado”, brinca. Bel Kutner acha graça, como quem não concordasse com a opinião do pai. “Tem uma frase que ele sempre fala que é: ‘O bom é melhor que o ótimo’”, diz a atriz, com sorriso no rosto. Paulo também não se acha vaidoso. Prefere o rótulo de orgulhoso. “Mas é porque tenho orgulho de tanta coisa que já fiz, que procuro fazer direito”, defende-se.

Perto de entrar na casa dos 80, Paulo José aproveita para fazer suas considerações sobre a velhice. “A velhice é inevitável e lamentável. Toda pessoa que decide viver mais tempo tem que enfrentá-la. Velhos, ficamos muito limitados fisicamente. Nem tudo está ao alcance do nosso desejo. A gente se obriga a ir menos além para não sofrer a falta”. As filhas entregam que o pai é durão e que não costuma ir às lágrimas com frequência. É o próprio Paulo quem dá a explicação, baseado na sua experiência em frente às câmeras. “O choro, às vezes, esvazia o discurso”.

 

 
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